Proclamação_da_República Cultura

Como era o transporte no Brasil na época de Dom Pedro I?

Brasil, 1822. Há exatos 189 anos, encarar uma estrada era uma das aventuras mais cansativas para se realizar no país que acabava de alcançar sua independência. Aliás, qualquer tipo de locomoção não era tarefa das mais simples como é hoje com seu carro na garagem. Pesquisei algumas curiosidades sobre como era o transporte na época de Dom Pedro I.

A esmagadora maioria da população só podia caminhar.  Carruagens? Que nada. O item era uma exclusividade da Família Real e de funcionários graduados do império no Rio de Janeiro. Alguns poucos fazendeiros mais ricos possuíam suas próprias carruagens – ou berlindas – para uso próprio, mas era um luxo quase igual a possuir um jatinho nos dias de hoje. Além da circulação restrita pelas péssimas ruas do país, quase todas estreitas e de calçamento irregular, as carruagens causavam grandes despesas em cavalos, cocheiros e cavalariços.

Cadeira da Senhora. Carregada pelos escravos.

 

Mas nem todo mundo colocava o pé no chão nessa época. A elite gostava de andar num curioso veículo chamado “cadeira de arruar”. Tratava-se de uma cadeirinha comum na qual instalavam vigas de madeira para que um escravo de cada lado carregasse o trambolho em cima dos ombros. Em um casamento, por exemplo, a noiva era levada em uma cadeira dessas enquanto os pais, o noivo e os padrinhos seguiam a pé o “carro matrimonial”.

Cadeira de Arruar

 

Quem era fã da “cadeira de arruar” era Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, que entrou para a história por manter um relacionamento secreto com Dom Pedro I. Aliás, existe até um relato de que, certa vez, enquanto Domitila utilizava o veículo, o imperador teria visto a cena e dispensado os escravos que carregam a marquesa por serem muito “fraquinhos”. O próprio Dom Pedro assumiu o lugar de um deles e carregou a Marquesa sobre os ombros.

Nesta época, São Paulo, a cidade com mais trânsito do Brasil, tinha menos de  10 mil habitantes e nem sonhava em ser a metrópole que um dia se tornaria. Aliás, a capital paulista resumia-se basicamente ao centro e tinha ruas bem esburacadas com nomes curiosos como Beco da Cachaça, rua do Cotovello e Beco do Inferno.

Uma viagem de Santos a São Paulo hoje leva em média 40 minutos sem trânsito. Em 1822, calcule um dia, muita lama, buracos e suor. A estrada utilizada chamava-se “Calçada Lorena”, uma subida íngreme construída em 1790 em cima da antiga trilha dos padres jesuítas. Eram oito quilômetros de extensão, três metros de largura e mais de 180 curvas em zigue-zague. Segundo Laurentino Gomes, autor do livro 1822, era uma das mais sinuosas e pitorescas estradas do Brasil. “A subida era tão íngreme que os viajantes levavam pelo menos duas horas para chegar ao topo da serra”, escreve Laurentino.

Como encarar a Calçada Lorena? Nada de cavalos. O automóvel certo chamava-se mula. Não tinha nenhum charme, mas era o único animal forte e confiável para encarar a serra. A mula era o caminhão no início do século 19. Os tropeiros colocavam quilos e quilos de mercadorias nas costas do animal. Cada tropeiro costumava levar oito mulas repletas de itens como vinhos, café, açúcar, ferragens. Aliás, até mesmo as mulas sofriam, derrapavam na lama e ficavam ofegantes a cada passo.

Tropeiros acompanhados de suas mulas de carga

 

Foi essa estrada que Dom Pedro I atravessou em 7 de setembro vindo de Santos antes de chegar às margens do Ipiranga e proclamar a Independência do Brasil. Aliás, neste dia, até mesmo o imperador utilizava uma mula (bem diferente das pinturas que mostram um belo e grande cavalo).

Esqueça os cavalos brancos. Dom Pedro I proclamou a independência montado em mulas


FONTES:

Museu Histórico Nacional

Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes

1822, Laurentino Gomes (Editora Nova Fronteira)